sexta-feira, 6 de maio de 2011

A FUNÇÃO TERAPÊUTICA DO PERDÃO

O apóstolo Paulo escrevendo aos Romanos fala que quando perdoamos os nossos inimigos é como se estivéssemos amontoando brasas vivas sobre as suas cabeças. O que acontece quando desejamos perdoar alguém e esse alguém não quer conversa? O que acontece quando necessitamos o perdão de alguém e esse alguém faz de conta que a gente não existe?
De acordo com a teologia paulina você deve tomar a atitude de buscar o perdão, perdoar e reconciliar-se com o outro e consigo mesmo. Quando a outra pessoa não se importa, ou faz que não se importa, o problema não é mais seu. Deixe a pessoa com um monte de brasas vivas na cabeça dela e essas brasas ficarão incomodando até o momento em que ela não aguentar mais e te procurar. Pode durar uma hora, um dia ou a vida toda.
O perdão tem uma função terapêutica, ou seja, produz cura. A falta de perdão, o ódio, a raiva, pode produzir morte.
A Bíblia nos ensina a perdoar assim como Deus em Cristo nos perdoou. O próprio Jesus na oração do Pai Nosso nos ensina: perdoa-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos os nossos devedores.
Penso que talvez seja fácil perdoar o nosso próximo, um amigo, ou até um inimigo. Difícil muitas vezes é a gente se perdoar. Entender como somos, ter amor próprio, viver um constante autoconhecimento. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.
O perdão então tem essa função de cura porque nos coloca em sintonia com Deus, com nosso próximo, com a natureza e conosco mesmo.
Vivamos com alegria essa realidade abençoadora que é o perdão.

Rev. Luiz Longuini Neto

terça-feira, 3 de maio de 2011

JANTANDO COM JESUS

A TARDE CHEGOU: REUNIU OS AMIGOS E FEZ UM JANTAR
...chegada a tarde, pôs-se ele à mesa com os doze discípulos....
Evangelho de Mateus 26. 20-30
Jesus não deixou nada escrito. Tudo que temos são coisas que disseram que Ele disse, são relatos que outras pessoas fizeram de sua vida, de seus atos, ministério, milagres, morte e ressurreição.  Vejo nesse ato de Jesus muita sabedoria. Ele não deixou nada escrito porque preferiu escrever no coração dos discípulos. Jesus preferiu escrever de outra maneira. Escrever com mais simplicidade falando as coisas que as pessoas queriam, mas que também precisavam ouvir. Não era uma necessidade no sentindo de que estavam totalmente errados, era a necessidade da existência humana. A necessidade de bondade, amor, de sonhos e esperanças. A necessidade de uma religião que fosse mais humana e que deixando as coisas celestiais e divinas conseguisse partilhar o pão, a água, o vinho a roupa. Afinal a existência. E é exatamente num dos momentos mais importantes da vida de Jesus que ele chama os amigos para um jantar e compartilha algumas coisas.
PODE SER O FIM DE TUDO, MAS NÃO É UM FIM FINAL
...desta hora em diante, não beberei deste fruto da videira....até aquele dia....
Durante aproximadamente três anos a convivência com esses amigos com certeza trouxe para todos frustrações e alegrias. O que esperar daquele projeto? Um líder que ficava andando de cidade em cidade sem ter aonde reclinar a cabeça. Um amontoado de gente com problemas, pobres, prostitutas, ladrões, pescadores, leprosos, endemoninhados. Nenhum ser humano consegue viver o tempo todo com esse grau elevado de tensão. Acho que alguns estavam ansiando que essa tarefa chegasse ao final. A Páscoa era sempre um a festa, uma lembrança. Alguma coisa terminava, mas também alguma coisa começava. Nunca estamos preparados para a morte. Então Jesus começa a escrever o seu maravilhoso testamento no coração dos amigos. Há um final que não será o fim. Agora tudo está começando e só compreende isso quem consegue olhar para a vida e ver que o que temos não temos, que o que somos não somos que o que vale de fato para a vida é o fruto da videira, que tomaremos no Reino do Pai.
PARTILHEM A VIDA, FRUSTRAÇÕES, ALEGRIAS, O BEM E O MAL
....enquanto comiam disse Jesus: um dentre vós me trairá....
A pior traição que alguém pode cometer não é contra o outro. É contra ele mesmo. O traidor na história de Jesus não é o exemplo de uma pessoa. É muito mais do que isso. É uma grande metáfora para a vida. Todos traíram, a Jesus, não foi apenas Judas. Todos traíram o projeto sobre o qual haviam aprendido por três anos. A  partilha da vida de Jesus não fora suficiente para engendrar naqueles corações medrosos a esperança de que tudo na vida pode ressuscitar. Eles não entenderam nada dos ensinos de Jesus. O que Jesus quer e sempre desejou é que seus amigos fossem felizes. Esqueçam os dogmas e as doutrinas. Essas coisas só servem para aprisionar e matar. Jesus tentou comunicar uma verdade que era mais que puro catecismo. Ele tentou fazer com que as pessoas entendessem que o que vale mesmo é saber viver em meios às frustrações, alegrias, convivendo com as duas dimensões sempre presentes em nossos corações: o bem e o mal.
VIVAM SEUS SONHOS, AS UTOPIAS, SEJAM FELIZES E COISA E ....TAL
....tendo cantado um hino....saíram....
Jesus não nos deixou nada escrito porque Ele queria que nós vivêssemos olhando para o futuro e não para o passado. É no futuro que moram os nossos sonhos. Quando perdemos a capacidade de olhar para o futuro, de sonhar com coisas possíveis e diferentes, estamos iniciando a nossa morte. E pior: vamos morrer como se nunca tivéssemos vivido. É maravilhoso olhar para o futuro e sonhar através das poesias, das músicas, das canções e dos hinos. Era costume ao final das refeições da páscoa cantar Salmos (provavelmente os que vão de 113 a 118). É só ler esses salmos para ver a dimensão utópica dos mesmos. Como escreveu Eduardo Galeano: Á utopia está no horizonte. Dou dois passos em sua direção, ela se afasta dois passos. Posso caminhar muito, mas nunca a alcançarei. Então! Para que serve a utopia? Para isso. Serve para caminhar.”   Jesus nos convida para sairmos pelas ruas cantando canções de utopia. Canções que mostrem a dimensão maravilhosa de Seu Reino. O pão que é corpo e o cálice da nova aliança conquistado com o seu derramamento de sangue. Mas isso não ficou no passado. Ele nos espera para tomarmos juntos o vinho novo. Vamos! Está entardecendo e Ele já preparou o jantar e nos espera. Vamos! É só caminhar. Foi para isso que Ele deixou a semente do futuro nos nossos corações.
Rev. Luiz Longuini Neto

segunda-feira, 2 de maio de 2011

TODA MEMÓRIA É SUBVERSIVA

TODA MEMÓRIA É SUBVERSIVA
....em busca da afirmação ontológica da escola SESC de ensino médio....
Pro Antonio Henrique (guardião da memória eseniana)
Andava apressado pelo corredor da ala das coordenações e um grupo de alunas estava apavorado. Disserem: - Longuini o que é isso que vamos fazer na médica: anamenese. Seria o encontro com a Dra. Ana? A palavra grega para memória é meneme, de onde vem a palavra menesis. Daí o significado de anamenese, isto é, quando vamos ao médico, por exemplo, fazemos um resgate da nossa história médica. De fato a palavra quer dizer trazer à memória novamente. A preposição grega “ana” significa novamente, por exemplo, anabatismo, os que batizam novamente. Também é conhecido o fato de alguém que fica com amnésia. O prefixo “a” significa “sem”, ou “não”, ou seja, a pessoa que perdeu a memória.
Nunca tivemos tanta preocupação com a memória, ou com a falta dela. O mal de Alzheimer alertou o mundo. Livros e filmes como Diário de uma Paixão de Nicholas Sparks, com mais de 12 milhões vendidos, chamam nossa atenção para o drama vivido por inúmeras famílias, pessoas que se amam, passaram quase uma existência juntos, e que de repente, não se reconhecem mais. A falta da memória faz com que filhos, pais, esposos e esposas tornem-se estranhos para si mesmos. Perder a memória, nesses casos, é perder a existência, não a existência do estar ali, corporalmente, mas é perder a consciência de si. O esquecimento de tudo e daquilo que verdadeiramente são provoca uma angústia existencial que se expressa em terríveis medos, delírios e alucinantes gritos.
A memória serve para muita coisa, e pode não servir para nada, apenas serve para nos falar, bem baixinho, aquilo que somos. Serve para sussurrar à nossa consciência na calada da noite as desgraças da vida. Serve para nos alertar, nas insônias da madrugada, de tudo que um dia desejamos e não conseguimos. Serve para nos despertar, com o simples cheiro de polenta cozida e ovo frito dos sabores e cores da infância. Serve para sentir, mesmo que ausente, o cheiro da pessoa amada, e sentir o corpo tremer entre os lençóis.
Numa das maiores encruzilhadas da história um jovem líder chamado Jesus Cristo estava prestes a ser assassinado. Reuniu as amigas e os amigos mais próximos e no meio de uma festa partilhou com eles pão e  vinho e disse que aquilo simbolizava a sua morte. Eles deviam repetir aquele jantar como lembrança: “ fazei isto em memória de mim”. Após mais de 2000 anos da sua morte os cristãos do mundo todo em todos os domingos recuperavam de maneira subversiva essa história fazendo a anamenese daquele momento, celebram a eucaristia.
A nossa querida ESEM empreende com bravura e tenacidade um projeto do seu Centro de Memória: preservar, lembrar, guardar, escrever, fotografar, falar, recordar, registrar, subverter. Sim a memória sempre irá subverter porque ela vai apresentar a sub-versão, a versão que está por baixo, ou a outra versão. Toda anamense é sempre outra versão.
A ESEM ao fazer isso está afirmando-se ontologicamente, afirma seu ser, busca seu ser e quer mais que recordar. Deseja registrar tudo que faz parte do seu multicolorido, multifacético e idiossincrático ser. Assim o faz porque deseja evitar o alzheimer institucional. Deseja evitar a falta da memória que fatalmente nos levará ao desesperador encontro com o esquecimento, a falta de consciência e memória histórica do nosso não ser.
Luiz Longuini Neto
Professor de Filosofia.

domingo, 1 de maio de 2011

DIA DO TRABALHADOR - HOMENAGEM

DIA DO TRABALHADOR
...do suor do rosto comerás o teu pão....
Alguns sociólogos afirmam que a tradição dos países católicos difere em muito da tradição dos países protestantes no que se refere ao trabalho. Existem aqueles que afirmam serem os países católicos atrasados, pelo fato de que a sua concepção de trabalho é castigo, e os seus habitantes preguiçosos. Já os protestantes vêem o trabalho como virtude e seus habitantes, sendo virtuosos, vêem o trabalho como bênção de Deus e por decorrência são países prósperos. Hoje comemoramos não o dia do trabalho, mas do trabalhador. Conceitos que podem estar interligados, mas existe alguma diferença. Vejamos algumas explicações bíblicas sobre o trabalho e o trabalhador.
O TRABALHO COMO VOCAÇÃO E SUA DIMENSÃO TEOLOGAL
Os reformadores Martinho Lutero e João Calvino destruíram o conceito de uma única vocação sagrada. Para eles todo trabalhador recebe uma vocação específica e essa vocação (carisma) para determinado trabalho deve ser desenvolvida como ministério, como de estivessem servindo o próprio Deus. Jesus teve uma profissão que aprendeu com José seu pai. Se compreendêssemos todo trabalho e todo trabalhador como algo que vem como um presente de Deus seríamos mais felizes. Não haveria trabalho de primeira ou de segunda categoria.
O TRABALHO COMO REALIZAÇÃO E SUA DIMENSÃO EXISTENCIAL
O relato da criação coloca a luta pelo pão de cada dia como um castigo. As escrituras, no entanto, quando lida no seu contexto geral, não respaldam essa idéia. Ao contrário o trabalho aparece como algo que pode realizar o ser humano. Sempre que encontramos a ligação entre o que fazemos (profissão) com o que achamos que devemos fazer (vocação) então nos realizamos. Ser realizado naquilo que se faz não é viver uma vida de constante prazer. Muitas vezes o nosso trabalho vai exigir de nós tanta dedicação e enfrentamos tantos problemas que achamos que estamos fazendo algo errado ou estamos em lugar equivocado.
O TRABALHO COMO ORAÇÃO E SUA DIMENSÃO SOCIAL
Na carta de Tiago 5.4 encontramos uma expressão maravilhosa. Diz que o clamor dos trabalhadores, que não receberam o salário (roubado pelo patrão) chegou até Deus como uma oração. O trabalho e o trabalhador têm implicações sociais para qualquer sociedade. O lema beneditino do século quarto era “ora et labora”, orar e trabalhar. Seria isso possível trabalhar-orando e orando-trabalhar? Quando olhamos para a história dos trabalhadores podemos perceber que sempre foi uma história de lutas e de conquistas. A luta pelos direitos dos trabalhadores é algo plenamente legítimo e de acordo com a Palavra de Deus. Deus quer que sejamos realizados como trabalhadores, que tenhamos uma vocação verdadeira naquilo que fazemos e que acima de tudo pensemos na dimensão social do nosso trabalho, exigindo sempre os nossos direitos. Que Deus nos abençoe
Rev. Luiz Longuini Neto